17 de julho de 2014

Práticas excludentes no Brasil imperial: a partir da leitura de "Minhas Recordações"


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Por: Josanny 
 
No Brasil imperial vigoravam práticas excludentes que atingiam a maioria da população. A liberdade e a propriedade, o nascimento, a renda e o gênero representavam atributos que geravam diferenças, preconceitos e hierarquias na vida em sociedade.
A liberdade no novo império era o atributo que definia quem eram os cidadãos (livres), aqueles que pertenciam a sociedade civil, e o escravo (que não era dono nem de si mesmo), privado de todo e qualquer direito.
A propriedade também estabelecia e reforçava as diferenças presentes no interior da sociedade imperial. Ser livre e proprietário era completamente diferente de ser apenas livre, diferenciando os que detinham ou não os direitos políticos. Isso se projetava nas “desigualdades entre os cidadãos ativos hierarquizando votantes, eleitores de província”, determinando quem seriam os candidatos aos cargos de Deputado ou Senador.
Entretanto, essas “diferenças, desigualdades e hierarquias não se resumiam ao universo dos direitos civis e políticos” eram percebidas, por exemplo, nas festividades, na religião (distinguia-se os santos e igrejas frequentadas por determinados grupos), no vestuário, sendo marcas de distinção social.
Em “Minhas Recordações”, Francisco de Paula Resende retrata a sociedade mineira de 1845 por meio de uma abordagem acerca dos “divertimentos profanos” na povoação de Campanha com destaque para as danças, possibilitando ao leitor perceber as distinções entre os grupos.
Em seu texto demonstra as diferenças entre as danças do campo e as da cidade, e divide a população em três classes: a dos brancos (boa sociedade); a do povo mais ou menos miúdo (mulatos, cabras, caboclos, mamelucos); e dos escravos.
Na cidade, o baile era considerado a dança da classe superior, da boa sociedade, onde tocava-se piano de cauda e principalmente o cravo, dançava-se a gavota, valsas inglesas e espanholas entre outras danças. O batuque, dança do povo era considerado “lúbrico, indecente” chegando a ser proibido. O jongo, a dança dos negros, era ao ar livre, ao som do caxambu, da marimba e do urucongo.
Os diferentes instrumentos utilizados na execução das danças, o espaço onde acontecem, e principalmente os frequentadores desse ambientes acentuam o preconceito, a exclusão e a hierarquia dessa sociedade.
O autor demonstra o preconceito contra os negros quando num certo trecho diz que os instrumentos utilizados pelos africanos “são de uma pobreza inventiva extraordinária” e ainda quando fala de uma quarta raça “formada pelos indivíduos de sangue mais ou menos misturado ou antes os pardos” que não eram completamente privados da convivência dos brancos mais eram tidos como seres de “uma qualidade muito inferior” e que nos bailes apareciam como “simples espectadores”.
E assim, ao longo do texto por meio das danças da cidade e do campo, as diferenças e desigualdades existentes dentro dos grupos vão sendo sublinhadas: a família do fazendeiro na sua vida reclusa e resguardada; o camponês pobre que gosta de divertir-se após um dia de trabalho árduo; as moças mulatas que não são tiradas para dançar mesmo sendo belas; no piano de cauda que é transportado por animais para o interior para embalar os bailes da boa sociedade; na dança das senhoras da boa sociedade que se atreviam a dançar, etc.
O comportamento social do novo império, em toda sua complexidade, pode ser contextualizado com base em observações à “Minhas Recordações” de Resende quando se relata a postura dos indivíduos, por exemplo, nas festividades, onde podemos compreender a distinção entre os brasileiros nesse período. 
Confira o texto de Resende. Uma leitura maravilhosa que nos permite repensar nossa história. 
Boa leitura a todos!