-->
Por: Josanny
No Brasil imperial vigoravam práticas
excludentes que atingiam a maioria da população. A liberdade e a
propriedade, o nascimento, a renda e o gênero representavam
atributos que geravam diferenças, preconceitos e hierarquias na vida
em sociedade.
A liberdade no novo império era o atributo que
definia quem eram os cidadãos (livres), aqueles que pertenciam a
sociedade civil, e o escravo (que não era dono nem de si mesmo),
privado de todo e qualquer direito.
A propriedade também estabelecia e reforçava
as diferenças presentes no interior da sociedade imperial. Ser livre
e proprietário era completamente diferente de ser apenas livre,
diferenciando os que detinham ou não os direitos políticos. Isso se
projetava nas “desigualdades entre os cidadãos ativos
hierarquizando votantes, eleitores de província”, determinando
quem seriam os candidatos aos cargos de Deputado ou Senador.
Entretanto, essas “diferenças, desigualdades
e hierarquias não se resumiam ao universo dos direitos civis e
políticos” eram percebidas, por exemplo, nas festividades, na
religião (distinguia-se os santos e igrejas frequentadas por
determinados grupos), no vestuário, sendo marcas de distinção
social.
Em “Minhas Recordações”, Francisco de
Paula Resende retrata a sociedade mineira de 1845 por meio de uma
abordagem acerca dos “divertimentos profanos” na povoação de
Campanha com destaque para as danças, possibilitando ao leitor
perceber as distinções entre os grupos.
Em seu texto demonstra as diferenças entre as
danças do campo e as da cidade, e divide a população em três
classes: a dos brancos (boa sociedade); a do povo mais ou menos miúdo
(mulatos, cabras, caboclos, mamelucos); e dos escravos.
Na cidade, o baile era considerado a dança da
classe superior, da boa sociedade, onde tocava-se piano de cauda e
principalmente o cravo, dançava-se a gavota, valsas inglesas e
espanholas entre outras danças.
O batuque, dança do povo era considerado “lúbrico, indecente”
chegando a ser proibido.
O jongo, a dança dos negros, era ao ar livre, ao som do caxambu, da
marimba e do urucongo.
Os diferentes instrumentos utilizados na
execução das danças, o espaço onde acontecem, e principalmente os
frequentadores desse ambientes acentuam o preconceito, a exclusão e
a hierarquia dessa sociedade.
O autor demonstra o preconceito contra os
negros quando num certo trecho diz que os instrumentos utilizados
pelos africanos “são de uma pobreza inventiva extraordinária” e
ainda quando fala de uma quarta raça “formada pelos indivíduos de
sangue mais ou menos misturado ou antes os pardos” que não eram
completamente privados da convivência dos brancos mais eram tidos
como seres de “uma qualidade muito inferior” e que nos bailes
apareciam como “simples espectadores”.
E assim, ao longo do texto por meio das danças
da cidade e do campo, as diferenças e desigualdades existentes
dentro dos grupos vão sendo sublinhadas: a família do fazendeiro na
sua vida reclusa e resguardada; o camponês pobre que gosta de
divertir-se após um dia de trabalho árduo; as moças mulatas que
não são tiradas para dançar mesmo sendo belas; no piano de cauda
que é transportado por animais para o interior para embalar os
bailes da boa sociedade; na dança das senhoras da boa sociedade que
se atreviam a dançar, etc.
O comportamento social do novo império, em
toda sua complexidade, pode ser contextualizado com base em
observações à “Minhas Recordações” de Resende quando se
relata a postura dos indivíduos, por exemplo, nas festividades, onde
podemos compreender a distinção entre os brasileiros nesse período.
Confira o texto de Resende. Uma leitura maravilhosa que nos permite repensar nossa história.
Boa leitura a todos!