Historiografia: A importância da crítica de Maquiavel e Guicciardini à historiografia humanista e o papel dos antiquários do século XVII
Para Nicolau Maquiavel (1469-1527) os humanistas deixavam a desejar em suas análises políticas ocorridas no seu tempo, valorizando mais a concórdia, a virtude, o bom governo, etc. o que tornava sua leitura insuficiente para a compreensão dessas realidades e incapaz de servir como modelo, como lição para as outras gerações.
Ao contrário de humanistas como Leonardo Bruni e Poggio Bracciolini, Maquiavel inova ao elaborar uma nova maneira de interpretar a História. Os problemas relativos aos conflitos existentes no passado das cidades, as tensões políticas entre o ?povo? e os ?grandes? deveriam ser explicitados de forma especial, pois levariam a consecução eficaz da liberdade e aperfeiçoamento das instituições.
Para ele a história é cíclica, existem acontecimentos que são recorrentes, invariáveis ao longo do tempo. Assim, a realidade deve ser analisada segundo a verdade efetiva das coisas?, devendo-se estudar o passado com o intuito de prever situações, propor soluções e aplicá-las no presente.
O humanista Francesco Guicciardini (1483-1540), também utiliza o passado como referência para o presente. No entanto, difere de seu amigo Maquiavel em um ponto: não acredita em modelos de perfeição do passado que conduzam a ações mais eficazes no presente. Isto por que segundo ele, há uma instabilidade presente nos acontecimentos, pequenas variações que produzem alterações na realidade, diferenças substanciais. As particularidades são fundamentais num relato histórico, mas somente alguns são dotados de capacidade e perspicácia para percebê-las tirando lições que possibilitem a interpretação da realidade. Com ele a História passa a focalizar as diferenças existentes, as transformações, as causas e motivações dos acontecimentos, não apenas as lições extraídas do passado. Tal idéia é expressa no seguinte fragmento:
"Do conhecimento de tais fatos, tão graves e variados, todos poderão adquirir muitos ensinamentos salutares, para si e para o bem público: donde, por exemplos inumeráveis, ficará evidente toda a instabilidade que se impõe às coisas humanas, não de outra maneira que a de um mar agitado pelos ventos". (GUICCIARDINI, Francesco. Storia d'Italia, I, 1).
Dessa forma, com Maquiavel e Guicciardini os relatos historiográficos tomam novos rumos, novos olhares acerca dos exemplos do passado, da História como mestra da vida. Ambos apontam para a importância do estudo das particularidades dos acontecimentos na compreensão e interpretação do presente (um focalizando as semelhanças e o outro as diferenças entre os fatos). Partindo de suas experiências de vida seus relatos diferem dos seus colegas humanistas.
O papel do antiquarismo na crítica a historiografia humanista refere-se à aplicação de métodos que exigem análises apuradas e a verificação da autenticidade dos fatos do passado. Essa preocupação com a veracidade dos fatos é percebida nas obras de Leonardo Bruni, Maquiavel e Guicciardini.
Na França do século XVI surgiram os critérios que definiriam a veracidade e autenticidade das narrativas e no século XVII são estabelecidas regras para a crítica dos documentos do passado (certificação ou não da autenticidade, interpretação do documento dentro do contexto em que foi produzido). Pouco a pouco a pesquisa antiquária é incorporada ao ofício de historiador.
Assim, a História distancia-se cada vez mais da retórica e da História como mestra da vida o que se torna evidente a partir das críticas ao humanismo tecidas por Maquiavel e Guicciardini, e com as inovações metodológicas introduzidas pelos antiquários e que passam a fazer parte dos relatos históricos.

